quarta-feira, 10 de junho de 2015

#06 Aterrissando na Austrália

Terra distante
Tem início o GFP. Depois de tanta preparação e dias imaginando como seria essa volta ao mundo, ela finalmente começa a se delinear diante de nós. Primeira parada: Austrália, país que está a mais de 15 milhões km de distância do Brasil, mas que fala a mesma língua de paixão pela agropecuária e comprometimento das pessoas com o desenvolvimento do setor.
De extensão territorial de 7,7 milhões km² e população estimada de 23,8 milhões de pessoas (aproximadamente a população do estado de Minas Gerais, de “apenas” 586,5 mil km²), a Austrália faz mágica com menos de 5% de seu território próprio para cultivo e expressivas variações climáticas nos últimos anos. É uma grande produtora e exportadora de trigo, aveia, cevada, algodão, e figura-se entre os líderes globais na comercialização de carne bovina, estando tecnicamente empatada com o Brasil em terceiro lugar na exportação do produto (estimativa de 1,5 milhões de toneladas em 2015).
Além da relevância para a agropecuária mundial, o país figura-se como o epicentro de atividades da Nuffield. É um privilégio estar na terra onde tudo começou, e observar a construção e o poder de alcance da instituição em todo mundo, mesmo a mais de 15 milhões km, reverberando lá no Brasil.
Logo na chegada, me reuni à outra bolsista Holly Beckett e fomos recebidos pelos incríveis Wade Mann e Nicola Anne Mann. Nicky participou do programa de 2014 com a pesquisa “Intensifying Production and Output Through Protected Cropping Systems”, e nos deu vários direcionamentos em relação ao GFP e elaboração de nossos relatórios.
Ela e Wade são proprietários da Roses 2 Go, negócio de cultivo e distribuição de flores, em fase inicial de diversificação. A família Mann possui duas estufas de 3,0 mil m², com rosas e mirtilos em cada. A produção de rosas corresponde a 24 mil plantas, ou 60 mil buquês por ano, sendo 25% do total rosas vermelhas e 75% distribuído em variações de rosas amarelas, laranjas, rosas, brancas e outras.
Com a produção de mirtilo – ainda precoce –, a família espera alcançar 0,5 kg por planta no primeiro ano de venda, 2 kg por planta no segundo ano, 5 kg no terceiro ano e 10 kg por planta no quarto anos (e cinco seguintes a esse), desempenho só atingido graças à estrutura das estufas.
Segundo Wade, o maior desafio do negócio está na opção desprivilegiada das rosas. Como representam itens de luxo, não são priorizadas na cesta de consumo. Por isso, há a necessidade de se diversificar para adequar a Roses 2 Go às forças de mercado.
Agradeço ao Wade, Nicky e seus adoráveis filhos pela recepção calorosa, por me darem abrigo, por me mostrarem um pouco de sua rotina e pela gentileza em ceder sua própria casa. É muito bom se sentir acolhida do outro lado do mundo.
Querida Nicky na Roses 2 Go
No primeiro dia de junho fomos recebidos com um maravilhoso almoço pelo outro bolsista James Mifsud, sua esposa Frances e seus filhos. James é proprietário de uma fazenda de criação de perus e gado. São criados aproximadamente 16 mil perus por ciclo (22 semanas) distribuídos em seis galpões.
A criação de aves é extremamente eficiente e de produtividade linear. A busca por melhoria no desempenho agora está concentrada no pasto. O objetivo de James é reformar o perfil do solo nos 400 hectares onde cria cerca de 140 vacas. Grama de qualidade significa gado mais bem alimentado.
Já há alguns anos, o maior desafio do empreendimento está no lide com a American Society for Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA), que promove o bem-estar dos animais e, aqui especificadamente, regula a qualidade da carne comercializada em última instância, ou seja, que imprime o selo que estampa a embalagem do produto nas gôndolas.
James alega que há um distanciamento entre as condições de controle exigidas pelo órgão e os critérios que realmente determinam o controle de produção. Os produtores relatam uma sensação de limitação, ou de perda de empoderamento de seu próprio negócio. O fundamento para a produção reduz a viabilidade do produtor de comercializar e diversificar seu próprio produto. O mais grave, entretanto, é que este selo imprime um esforço adicional para regularizar a carne vendida, e os gastos extras implicam em aumento de preço da mesma, sendo que o diferencial não é repassado aos produtores.
Esta é uma discussão delicada, já que ambas as partes têm fortes visões e argumentos de defesa, e James trabalha duro pela conciliação de interesses. Acho que o órgão não deve medir esforços na regulação do setor, mas tem a obrigação de estar próximo ao mesmo, e ter domínio de conhecimento da cadeia para que então tome decisões e imprima leis que o legitimem. É uma grande responsabilidade determinar o futuro de toda uma indústria.
James, Frances e sua família também me acolheram com grande carinho, e sou grata por sua bondade e atenção. Espero recebe-los tão bem quando me visitarem no Brasil (e que me visitem!).
A estada australiana durou três dias, sobre os quais discorrerei em detalhes as apresentações e visitas mais marcantes.
Dia 1: discussão com Hugh Maginnis, counsellor for agricultural affairs Australia and New Zealand, Ben Slatter, Delegation of EU to Australia Senior Adviser, Trade, Economic & Agriculture, Amy Tisdall, First Secretary of New Zealand High Commission Canberra e Tony Maher, Genreral Manager Policy, Trade and Economics for National Farmers Federation. Todos discutiram a relação entre a Austrália, seus países de origem e demais, sobre o potencial agrícola de suas economias e sobre o futuro das relações de mercado mundiais.
A fala de destaque, ao meu ver, esteve na apresentação de Hugh Maginnis. O conselheiro discorreu sobre a viabilização do acesso australiano na economia norte-americana e vice-versa, e sobre a atual situação agrícola estadunidense.
Nos últimos anos, observou-se uma queda de área no país destinada ao cultivo de trigo e algodão, e expansão de soja e milho, tendo como premissa o crescimento de produção de etanol e ração animal. O USDA alega que grande parte da demanda mundial potencial por esses grãos na próxima década será suprida pelos Estados Unidos. Considerando-se que o setor agropecuário do país já tenha atingido níveis ótimos (e, portanto, estáveis) de produtividade, e que a disponibilidade de área é limitante, questiono a afirmação de Hugh. O Brasil, apesar do grande gargalo logístico, tem atual capacidade para exportar o dobro do volume de milho que direciona aos portos (cerca de 20 milhões de toneladas). Somando-se a competitividade brasileira nesse sub-setor a toda a expectativa crescente na possível conversão de área russa, penso que talvez o órgão norte-americano esteja superestimando as previsões de ganho de mercado dos Estados Unidos.
Nos períodos da tarde e noite visitamos o Parlamento australiano sob guia de Ross Gough. Participamos do question time e pudemos observar o liberal e primeiro-ministro da Austrália Tony Abbott e outros ministros serem questionados sobre seu mandato por membros do parlamento. O esquivo às perguntas mais delicadas (sobre programas assistenciais, por exemplo) me fizeram refletir sobre essa tal de democracia. Seria democrático dar à população o direito de questionar seu governo, ou a democracia está, na verdade, no direito de a população de ter seus questionamentos respondidos com clareza e propostas de ação?
Nossa primeira reunião em Canberra
Dia 2: em momento reservado ao grupo GFP Índia, realizamos um teste de personalidade com o especialista Rob Patrick. O objetivo era identificar as principais características de cada integrante do grupo e explorar e desenvolver seus gatilhos e qualidades. Estaremos juntos por seis semanas, praticamente 24h por dia, vindo de países diferentes, culturas diferentes, línguas diferentes e com cabeças diferentes. É de extrema importância que aprendamos a identificar pontos de inflexão no lide diário, e os trabalhemos para que o aprendizado seja maximizado. Na mesma proporção, as qualidades pessoais devem ser exploradas em benefício do grupo.
Tenho a certeza de que podemos contar uns com os outros, e não poderia estar mais satisfeita com as pessoas com quem escolhi participar dessa jornada.
No período da tarde conversamos com Andrew Johnson sobre responsabilidades e o que significa ser um viajante nuffieldeiro. Foi ótimo ouvir a voz da experiência de quem já viveu tudo o que experimentaremos agora (Andrew foi bolsista no programa há cerca de dez anos) e que hoje ocupa o posto de nada mais, nada menos, do que chairman da Nuffield Austrália.
Em seguida, dedicamos algumas horas a conhecer um pouco mais sobre Canberra, com destaque à visita à National Gallery of Australia.
Conhecendo Bronwyn Bishop e Bruce Scott
Dia 3: de volta a Sydney, é hora de se despedir desse incrível país e se preparar para a imersão que segue nas semanas seguintes. Tantos eventos acontecidos e só estamos começando.
Rumo a Singapura!
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#06 Landing in Australia

Far far away land
So the GFP begins. After so much preparation and days wondering about this world tour, it finally begins to outline before us. First stop: Australia, a country more than 15 million km away from Brazil, but which speaks the same language of passion for agriculture and commitment of people to the development of the sector. 
Of territorial extension of 7.7 million km², and an estimated population of 23.8 million people (roughly the population of Minas Gerais, "only" 586.5 thousand km²), Australia makes magic with less than 5% its territory suitable for cultivation and significant climatic changes in recent years. It is a major producer and exporter of wheat, oats, barley, cotton, and figures among global leaders in beef market, technically tied with Brazil in third place for meat exports (estimate 1.5 million tons in 2015). 
Besides the relevance to world agriculture, the country represents the epicenter of Nuffield activities. It is a privilege to be in the land where it all began, and observe the construction and power range of the institution in the world, even more than 15 million km away, there reverberating in Brazil. 
Upon arrival, I met the scholar Holly Beckett, and we both were greeted by the incredible Wade Mann and Nicola Anne Mann. Nicky participated in the 2014 program with the topic "Intensifying Production and Output Through Protected Cropping Systems", and gave us several directions relative to GFP and preparation of our reports. 
She and Wade are owners of Roses 2 Go, growing and distribution business of flowers, in early stage of diversification. The Mann family has two 3.0 thousand m² greenhouses with roses and blueberries. Roses production corresponds to 24.0 thousand plants, or 60.0 thousand bouquets a year, 25% of the total red roses and 75% distributed in variations of yellow roses, oranges, roses, white and others. 
With the production of blueberries, the family expects to reach 0.5 kg per plant in the first year of sales, 2 kg per plant in the second year, third year 5 kg/plant, and 10 kg per plant in four years (and five following this), performance only achieved thanks to the greenhouses structure. 
According to Wade, the biggest business challenge is in underprivileged option of roses. They represent luxury items, or are not prioritized in the consumption basket. This demands Roses 2 Go to diversify to attend market forces. 
I am grateful to Wade, Nicky and her lovely children for the warm reception, for giving me shelter and for showing me some of their routine. It's great to feel so welcomed across the world.
Dear Nicky at Roses 2 Go
On the first day of June we were greeted with a wonderful lunch by the other scholar James Mifsud, his wife Frances and their children. James and Frances own a turkey and cattle farm, as poultry as the main business, approximately 16.0 thousand birds per cycle (22 weeks), allocated in six sheds. 
The production is extremely efficient, with linear productivity. In search of performance improvement, the family now focuses on pasture. James goal is to reform the soil profile in their 400 hectares with 140 cows. Quality grass means cattle well fed. 
For some years, their biggest challenge has been dealing with the American Society for Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA), which promotes animal welfare and, here specifically, regulates the quality of marketed beef, and prints the label that goes on the product packed to the shelves. 
James claims that there is a gap between control requirements by the agency and the criteria that really determine the production control. Producers reported a sense of limitation or loss of empowering their own business. The basis for the production reduces the viability of the producer to market and diversify his own product. The worst, however, is that this seal prints an extra effort to rectify the beef sold, and extra expenses imply price increase of the same, from which difference is not passed on to producers. 
This is a delicate discussion, since both parties have strong visions and defense arguments, and James works hard for the reconciliation of interests. I think the agency should spare no effort in the sector's regulation, but has an obligation to be close to it, and have chain domain knowledge to then take decisions and print laws that legitimize it. It is a great responsibility to determine the future of an entire industry. 
James, Frances and her family also welcomed me with great affection, and I am grateful for their kindness and attention. I hope to host them this well when they come and visit me in Brazil (please do that!). 
The group stayed in Australian for three days, on which I'll discuss in detail the most striking presentations and visits. 
Day 1: discussion with Hugh Maginnis, counselor for agricultural affairs Australia and New Zealand, Ben Slatter, Delegation of EU to Australia Senior Adviser, Trade, Economic & Agriculture, Amy Tisdall, First Secretary of New Zealand High Commission Canberra and Tony Maher, Genreral Manager Policy, Trade and Economics for National Farmers Federation. All discussed the relationship between Australia, their home countries and others on agricultural potential of their economies and the future of global market relations. 
The highlight, in my view, was the presentation of Hugh Maginnis. The counselor spoke about the viability of the Australian access in the US economy and vice versa, and the current US agricultural situation. 
In recent years, wheat and cotton area were nationally reduced, while soybean and corn expanded, taking as its premise the ethanol and animal feed production growth. The USDA claims that much of the demand potential for these grains in the next decade will be supplied by the United States. Considering that the countries’ agricultural sector has already reached optimum levels (and therefore stable) of yield, and that the availability of area is limiting, I question Hugh’s statement. Brazil, despite the major logistical bottleneck, has current capacity to export twice the amount of corn sent to ports (about 20 million tons). Adding Brazilian competitiveness on this sub-sector to the entire growing expectation on possible Russian area of ​​conversion, I think that perhaps the US agency might be overestimating the US market share gain forecasted. 
During the afternoon and evening we visited the Australian Parliament, on Ross Gough guide. We participated in the question time and watched the Liberal and prime minister of Australia Tony Abbott and other ministers to be asked about their mandate by members of parliament. The elusive to the most delicate questions (about assistance programs, for example) made me reflect on this such thing that is democracy. Giving people the democratic right to question their government can be called democracy, or, in fact, the right of people to have their questions answered clearly, with proposals for action is really what democracy means?
Our first meeting in Canberra
Day 2: on a morning spared just for the India group, the expert Rob Patrick conducted a personality test. The goal was to identify the main features of each member of the group and explore and develop their triggers and qualities. We'll be together for six weeks, almost 24 hours a day, coming from different countries, different cultures, different languages ​​and with different heads. It is extremely important that we learn to identify turning points in the daily deal, and work so that the learning is maximized. In the same proportion, the personal qualities should be exploited for the benefit of the group. 
I am sure we can count on each other, and I could not be more pleased with the people I’m doing this journey with. 
In the afternoon we talked with Andrew Johnson on responsibilities and what it means to be a nuffielder traveler. It was great to hear the voice of experience (Andrew was in the same program at about ten years ago) of someone that now ranks as the Chairman of Nuffield Australia. 
Then we devoted a few hours to learn a little more about Canberra, with a special visit to the National Gallery of Australia.
Meeting Bronwyn Bishop and Bruce Scott
Day 3: back to Sydney, it's time to say goodbye to this incredible country and get ready for an Asia immersion in the following weeks. So many events happened and we are just beginning.
Towards Singapore!
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sexta-feira, 29 de maio de 2015

#05 Tempo de GFP!

É chegado o Global Focus Program (GFP), o tour mundial de um mês e meio por quatro continentes, sete países. No CSC, conferência inaugural do programa de 2015 da Nuffield, tivemos a oportunidade de conhecer os bolsistas participantes desta edição, discutir as pautas mais atuais e pertinentes ao agronegócio global, refletir sobre a nossa responsabilidade e inserção nesse meio e projetar um futuro com soluções aos entraves e gargalos que enfrentamos, possíveis de serem implementadas por todos nós – além de, claro, conhecer a belíssima região de Reims, França. Também estivemos em direto contato com as pessoas que fazem a Nuffield acontecer, com sua filosofia e poder de transformação, representantes de todos os países integrantes e totalmente comprometidas com a instituição.
Acredito que todo esse engajamento e imersão nos bem preparou para o tour que segue. É preciso testemunhar os eventos de que tanto falamos sobre, e conhecer aqueles que se envolvem diretamente com a dinâmica agrícola. Quem são as autoridades responsáveis pela administração agrícola australiana? Como se dá a interação de grandes empresas e a pequena população rural na Singapura? Qual é o driver de produção no Qatar? Como lidam com a grande limitação de área? Quais foram os caminhos traçados para que a Turquia se aproximasse da auto-suficiência de alimentos? A Índia tem potencial para se tornar o líder mundial em exportação de algodão? Esses são alguns dos questionamentos pessoais que pretendo abordar durante a viagem.
Espero que possamos respondê-los, todos dentro de um contexto de visitas que englobará: três dias em Canberra, Austrália, três dias em Singapura, nove dias em Madurai, Thekkady, Coimbatore, Amritsar, Ludhiana e Nova Deli, Índia, quatro dias no Qatar, sete dias na Turquia, sete dias na França e 13 dias nos Estados Unidos.
Tenho a certeza de que será uma experiência única e inédita na vida de todos nós, bolsistas companheiros de viagem. Talvez eu já tenha tido algum vislumbre do que esperar dessa viagem. Em abril deste ano recebi o privilégio de encontrar o grupo GFP Brazil em Minas Gerais, que já rodava o mundo há semanas no mesmo programa que estou prestes a iniciar, porém por países diferentes.
O grupo, formado por John Buckley, Joe Burke, Michael Craig, Reece Curwen, Jonathan Dyer, Andrew Freeth, Ben Haslett, Tom Quigley, Colin Hudon and Ben Allomes, percorreu diversos países, montando o mesmo painel sobre o agro global, sob perspectivas diferentes. Por causa de compromissos como analista, não pude estar presente todo o momento em que estiveram em solo brasileiro, mas os acompanhei em visita às empresas TecnoSeeds, e sua fábrica em fase de conclusão no município de Uberlândia, produtora de cultivares híbridas de vegetais, Vereda Alimentos, que atua nos ramos de suinocultura e avicultura, Bioenergética Aroeira, usina capaz de moer até 1,3 milhão de toneladas de cana-de-açúcar, podendo produzir mais de 400 mil litros de etanol hidratado por dia e energia que potencialmente abasteceria duas cidades do tamanho de Tupaciguara, onde está localizada, Montesa Agropecuária, especialista no fornecimento de batatas destinadas as indústrias de processamento e consumo fresco, além de café, e Grupo Boa Fé (Ma Shou Tao), um complexo agroindustrial, que atua desde a pecuária leiteira intensiva até a fabricação de lanches derivados da soja com compromisso nutricional.
A turma em visita à Bioenergética Aroeira
O pouco tempo que estive com eles me foi muito enriquecedor, mesmo o ambiente sendo familiar – resido no município de Uberlândia. Por isso, encorajo todos a se programarem e fazerem uma visita ao Brasil. Este é um país, como já dito antes, de significativa produção agrícola, inserção tecnológica e tão rico em sua diversidade de empreendimentos, de culturas e de gestão.
Minhas expectativas quanto ao GFP são de total entusiasmo. Sei que conhecerei grandes mentes, lugares incríveis e realidades diversas. Espero poder contribuir com essa essa troca de experiências, aprender em cada encontro tão cuidadosamente planejado pela equipe Nuffield, lidar com as diferentes práticas que certamente surgirão durante o percurso e fazer novos amigos. Nada é mais valioso do que a oportunidade do aprendizado, e tanto pessoas quanto circunstâncias surgem em nossas vidas como escolas. Que eu, então, esteja presente em todas as aulas.
Que o programa comece!

#05 Time for GFP!

It begins the Global Focus Program (GFP), the world tour of a month and a half on four continents, seven countries. At the CSC, inaugural conference of the 2015 Nuffield program, we had the opportunity to meet the participating scholars, to discuss the most current guidelines and relevant topics to global agribusiness, to reflect on our responsibility and inclusion in the interim and to design a future with solutions facing the current barriers and bottlenecks, implemented by all of us - plus, of course, to get to know the beautiful region of Reims, France. We were also in direct contact with the people who make it happen at Nuffield, through its philosophy and processing power, representatives of all member countries, fully committed to the institution.
I believe that all this engagement and immersion very well prepared us for what follows. We must witness the events we spoke about, and meet those who engage directly with the agricultural dynamics. Who are the authorities responsible for the Australian agricultural administration? How does it work the interaction of large companies and the small rural population in Singapore? What is the output driver in Qatar? How to deal with its major limitation area? What were the paths traced for Turkey to approach self-sufficiency of food? Does India have the potential to become the world leader in cotton exports? These are some of the personal questions I want to address during the trip.
I hope we can answer them, all within a context of visits which will encompass: three days in Canberra, Australia, three days in Singapore, nine days in Madurai, Thekkady, Coimbatore, Amritsar, Ludhiana and Delhi, India, four days in Qatar, seven days in Turkey, seven days in France and 13 days in the United States.
I am sure it will be an unique and new experience in our lives. I might have had some glimpse of what to expect from this trip. In May this year I got the privilege of meeting the Brazil GFP group in Minas Gerais state, which was already running the world for weeks on the same program I am about to start, but by different countries.
The group, formed by John Buckley, Joe Burke, Michael Craig, Reece Curwen, Jonathan Dyer, Andrew Freeth, Ben Haslett, Tom Quigley, Colin Hudon and Ben Allomes, toured several countries, riding the same panel on global agri under different perspectives. Because of commitments as an analyst, I could not be there all the time they were in Brazilian soil, but I was present on visits to TecnoSeeds, and its plant nearing completion in Uberlândia, producing hybrid vegetable cultivars, Vereda Alimentos, which operates in the swine and poultry fields, Aroeira Bioenergetics, plant capable of grinding up to 1.3 million tons of sugarcane, which can produce more than 400 thousand liters of hydrated ethanol per day and potentially energy that would fuel two cities Tupaciguara size, where it is located, Montesa Agriculture, specialist in providing potatoes for the processing and fresh consumption industries, as well as coffee, and Boa Fé Group (Ma Shou Tao), an agro-industrial complex, which operates from intensive livestock to manufactured snacks made of soy with nutritional compromise.
The group at Aroreira Bioenergetics
The short time I was with them was very enriching, even in a familiar environment - I live in Uberlândia. Therefore, I encourage everyone to get to program and make a visit to Brazil. This is a country, as said before, of significant agricultural production, technology insertion and so rich in its diversity of businesses, cultures and management.
My expectations for the GFP are of full enthusiasm. I know I’ll meet great minds, great places and different realities. I hope to contribute to this exchange of experiences, learning in every encounter so carefully planned by the Nuffield team, dealing with different practices that certainly will come out during the course, and making new friends. Nothing is more valuable than learning opportunities, and both people and circumstances arise in our lives as schools. I, then, shall be present in all classes.
So it begins!

domingo, 3 de maio de 2015

#04 O tour Battlefield

Posterior à CSC, os bolsistas participaram do tour Battlefield (ou campo de batalha), organizado por Jim Geltch, num trajeto de três dias que percorreu o norte da França e Bélgica revisitando o passado da 1ª Guerra Mundial, seu legado de inúmeras perdas e destruição.
2015 é um ano especial, pois marca o 100º aniversário do Dia ANZAC (exército australiano e neozelandês), quando tropas dos dois países desembarcaram em Gallipoli, península turca, para se juntar à ofensiva dos Aliados.
Fomos remetidos a um passado de batalhas difíceis, de devastação de milhares de vidas e condições de sobrevivência que a nossa geração é afortunada em não compreender por completo. Esses três dias de imersão histórica deixou todo o grupo num estado de profunda reflexão acerca das motivações da guerra, do sentimento de dever e patriotismo de quem viveu à época, e dos caminhos traçados para que trilhássemos agora em paz, paz esta não absoluta, mas infinitamente superior a anos de confronto bélico global.
Três momentos me foram muito especiais nessa viagem: a ida ao Memorial Nacional Australiano, na comuna francesa Villers-Bretonneux, onde em abril de 1918 a vitória australiana significou um verdadeiro turning point na Guerra, ao Memorial Thiepval, ou Memorial Anglo-Francês, “to the missing of the Somme”, à memória de mais de 70 mil britânicos e sul-africanos que lutaram na Battle of the Somme – belas cartas de crianças frente às lápides dos soldados homenageando-os com carinho –, e a cerimônia no Portão Menin, que acontece todos os dias (sim, todos) às 20h em Ypres, Bélgica, para recordar os que lutaram em defesa da cidade.
Meu sentimento ao fim dessa jornada foi de gratidão, pela oportunidade de conhecimento desses eventos que muito definem quem somos e onde estamos hoje, e de respeito àqueles homens que escreveram a história da Guerra.
A maioria de nós, brasileiros, não traz em suas famílias o legado das 1ª e 2ª Guerras Mundiais, não teve seus familiares envolvidos e/ou mortos em campos de batalha e não viveu num país dizimado pelo confronto. O nosso menor (embora não homogêneo) envolvimento talvez signifique um privilégio, mas isso não tira o dever de nos informarmos a respeito e nos engajarmos.
As fotos do tour estão disponíveis aqui.
O grupo no memorial da Segunda Divisão Australiana

#04 The Battlefield tour

After the CSC, the scholars joined the Battlefield tour, organized by Jim Geltch, on a three-day path that ran through northern France and Belgium revisiting the 1st World War, its legacy of numerous losses and destruction.
2015 is a special year, as it marks the 100th anniversary of ANZAC Day (Australian and New Zealand Army Corps), when troops from both countries landed at Gallipoli, the Turkish peninsula, to join the Allied offensive.
We were sent to a past of hard battles, devastation of thousands of lives and living conditions that our generation is too fortunate to fully understand. These three days of historical immersion left the whole group in a state of profound reflection on the war motivations, the sense of duty and patriotism of those who lived at the time, and the paths traced so we would now walk in peace, not an absolute peace, but infinitely superior to years of global military confrontation.
Three moments were particularly special to me: the visit to the Australian National Memorial, in Villers-Bretonneux, where in April 1918 the Australian victory meant a turning point in the war, the Thiepval Memorial, or Anglo-French Memorial, "to the missing of the Somme", to the memory of more than 70 thousand British and South Africans who fought in the Battle of the Somme – beautiful letters from children fondly honoring the soldiers –, and the ceremony at the Menin Gate, that happens every day (yes, every day) at 08:00 PM in Ypres, Belgium, to remember those who fought in the city's defense.
My feeling at the end of this journey was gratitude for the opportunity to learn about the events that much define who we are and where we are today, and respect to those men who wrote History.
Most of us, Brazilians, don’t bring in their families the legacy of the 1st and 2nd World Wars, did not have their families involved and/or killed in battlefields and did not live in a country decimated by these confrontations. Our smaller (although not homogeneous) involvement may mean a privilege, but it does not take away our responsibility to learn about and engage.
The tour photos are available here.
The group at the Second Australian Division Memorial

sábado, 2 de maio de 2015

#03 Conferência Contemporânea de Bolsistas, ou Sentido de Companheirismo e Comprometimento

No dia 28 de fevereiro teve início a Conferência Contemporânea de Bolsistas (CSC) do programa de 2015 da Nuffield International. Cerca de 75 profissionais de diversos setores relacionados ao agronegócio se reuniram em Reims, na região de Champagne-Ardenne, França, para discutir os rumos da agricultura mundial, sob desenvolvimento de um setor agrícola inovador e dinâmico.
Esse foi o primeiro contato que fiz com os outros bolsistas, com os representantes da Nuffield de cada país, e com a série de ações desenvolvidas pela organização em colaboração global. Jean Lonie, representante da Nuffield EUA, nos deu a perfeita definição da conferência, logo em sua primeira fala: estávamos todos ali para ter nossas mentes esticadas, nossos conceitos confrontados e nossa visão ampliada. Trata-se de um verdadeiro exercício de compreensão das inúmeras esferas e realidades ao redor da agricultura de que não nos damos conta existirem.
Desde sempre, a História é determinada por pessoas que tomam para si a responsabilidade de transformação, e assumem a dianteira. A conferência tem esse objetivo, preparando a próxima geração de líderes na agricultura através da articulação das mais relevantes e atuais pautas do agronegócio mundial (sucessão, sustentabilidade, superpopulação, gerência, dentre outros).
Foram sete dias de trabalho intenso, conhecendo pessoas de todas as partes do mundo, estudando, discutindo, idealizando... Todo o conteúdo nos foi muito valioso e instrutivo, mas farei aqui uma imersão aos eventos que mais me acresceram:
Dia 1: linha do tempo de minha vida. Basicamente, montamos um gráfico cujo eixo X marcava anos de vida a datar do nascimento, onde retrataríamos acontecimentos determinantes em nossa história (bons e não tão bons), e o eixo Y marcava a escala de importância de tais fatos. Foi um excelente exercício para refletir a nossa trajetória de vida até aquele exato momento, e o usamos para nos apresentar aos colegas bolsitas.
Dia 2: a palestra de Edwin Van Raalte, a primeira e, pessoalmente, mais atual e completa sobre os dilemas que envolvem o futuro da agricultura. Discutimos a questão da crise global de alimentos, sob as premissas centrais de crescimento populacional (158 pessoas nascidas por minuto no mundo), desperdício (se todo o alimento desperdiçado se originasse de um país, este seria a 3ª economia no ranking geral) e sucessão (a cada 20 anos, o número de produtores rurais é reduzido pela metade). Segundo Edwin, o crescimento médio da produção agrícola é de 1,4%, enquanto o estimado seria de 1,75%.
Edwin Van Raalte e o futuro da agricultura
A questão do desperdício muda de perspectiva a depender do grau de desenvolvimento das nações. Em países desenvolvidos, o desperdício é mais grave a nível de consumidor final, enquanto que em economias em desenvolvimento perde-se muito ao longo da cadeia de valor, evidenciando a necessidade de aprimoramento das técnicas de produção e logística.
Dia 3: a visita às instalações do cluster Agro-Recursos e Indústria (IAR)/Cristal Union. A IAR apoia modelos de negócio baseados no princípio da biorefinação, responsável pelo uso integral das plantas (não há matéria inutilizada). Seus benefícios envolvem: o uso exclusivo de matérias-primas renováveis, independência de fontes de origem fóssil, redução da emissão de gases de efeito estufa, supressão do desperdício de insumos agrícolas e suporte ao desenvolvimento econômico de áreas afetadas pela migração da indústria.
A excursão contou com o direcionamento de Jean-Marie Chauvet e introdução prévia de Olivier De Bohan, presidente da Cristal Union, cooperativa que representa mais de 40% de toda a beterraba produzida na França, para fins de açúcar e etanol.
Jean-Marie Chauvet durante a visita ao cluster IAR
Dia 4: o quarto dia foi, pessoalmente, um dos mais interessantes, pois entramos na pauta do uso de materiais geneticamente modificados, seus benefícios e restrições. Marie-Cécile Hénard, agrônoma e economista responsável por inovação e mercados na organização saf agr’iDées, discutiu a falha de comunicação entre ciência e agricultura, e seus reflexos na percepção da sociedade. Geralmente, os órgãos responsáveis pela formulação e estabelecimento das leis estão distantes da agricultura e sua realidade.
Isso faz com que a adoção de organismos geneticamente modificados (OGM) se dê em profunda desigualdade em vários países, gerando empecilhos ao trading global e à construção de um marco regulatório legal mais unificado e coeso. Além, tecnologias originadas em países cuja maioria da população tem visão contrária aos OGM tendem a excluir essa importante ferramenta em seu processo de desenvolvimento, como a agroecologia, de grande relevância na França, que acredita que a otimização de agroecossistemas e biotecnologia são excludentes.
O mesmo país, ainda segundo Marie-Cécile, importa aproximadamente 30 milhões de toneladas de soja GM todos os anos para se produzir ração animal. Observa-se, portanto, como a veiculação de informação pode ser defasada, e como isso impacta na escolha do consumidor final, que apoia a proibição de pesquisas em biotecnologia com direcionamento à agricultura (principalmente na Europa).
Dia 5: a fala muito especial de Jean-Pierre Beaudoin, ex-presidente do Grupo i&e, nos fez questionar a forma pela qual nos comunicamos, e se atingimos os objetivos almejados sob essa comunicação. Jean-Pierre enfatizou a desconexão entre o ideário comum do homem urbano e do homem rural. Os estereótipos apontam para o consumidor como multifuncional, urbano e “mimado”, enquanto o homem rural é visto como um “cliché”, alheio às questões sociais que não abrangem a agricultura e subsidiado, impossibilitado de ser completamente autônomo em seu negócio.
Como resultado desses preconceitos, Jean-Pierre aponta os 30% de desperdício global de alimento e a nossa incapacidade em distinguir racional de razoável, comunicação de relação. Foi um verdadeiro despertar a todos nós.
Jean Pierre Beaudoin discutindo comunicação
Dia 6: a conversa muito interessante e descontraída com Géraldine Weber, Fanny Mingam e Pierre Martin, integrantes da Bio3G, sobre estímulos à liderança através do desenvolvimento de habilidades pessoais. Os principais pontos para se estabelecer parâmetros de liderança são: faças o que dizes fazer e digas o que fazes, assuma riscos, adapte-se ao trânsito de gerações, valorize o conhecimento dos colaboradores, preste atenção nas pessoas, dedique-se a elas e estimule-as a desenvolver suas habilidades criativas, imaginativas, emocionais.
Um ambiente de trabalho colaborativo e de confiança interpessoal é fundamental para se estabelecer princípios de respeito e alegria nas empresas.
Jantar muito especial no Mumm
Dia 7: no sétimo dia, de fechamento dessa incrível semana, dividimos os bolsistas em grupos de cinco a sete pessoas para discutir e propor mudanças em temas centrais da agricultura de abrangência global. O grupo em que participei discutiu o papel do produtor rural na construção de novos mercados em países em desenvolvimento, assunto muito pertinente ao Brasil.
Chegamos às conclusões (embora não definitivas), de que é preciso entender o mercado e o melhor acesso a este, promover cooperação e organização direta entre produtores de diversos países, desenvolvendo-se uma relação de ganha-ganha, investir na adoção de tecnologia (acesso a e adoção de) e explorar uma maior retenção de valor de mercado de commodities agrícolas a nível do produtor, amenizando o uso desses produtos como mecanismo de especulação.
Foi uma ótima maneira para abrangermos todos os tópicos discutidos nessa semana de intenso trabalho.
Atividade de encerramento da conferência
Eu não poderia imaginar uma maneira melhor de ser introduzida ao programa da Nuffield senão através da CSC. Fui apresentada a dezenas de pessoas inteligentes, dinâmicas, bem-sucedidas e sempre tão dispostas a transmitir conhecimento, estudei a agricultura global sob diferentes perspectivas e, realmente, tive minhas concepções confrontadas inúmeras vezes e, o mais importante, fiz amigos. Amigos para a vida. Me senti acolhida e bem-vinda por todos os integrantes Nuffield, e deixei Reims em meados de março com a certeza de que este será um ano de muito trabalho, alegria e parceria.
Todas as palestras podem ser encontradas aqui, assim como as fotos do evento.